14/05/2021 - Equipe do HGG utiliza tecnologia para conseguir contato com indígena venezuelana



Paciente da etnia Warao, que fala apenas dialeto local, ficou internada para tratamento de pneumonia e desidratação

A comunicação é fator de extrema importância para um tratamento médico. Saber o histórico do paciente e de seus familiares, o relato sobre as dores que está sentindo, entre outros pontos, ajudam a equipe médica a apontar diagnósticos e o melhor tratamento a ser realizado. Agora imagine uma paciente estrangeira, que não fala sua língua e nenhuma outra que você tenha conhecimento. Mais do que isso, a paciente é de outra cultura, sem muito conhecimento sobre como funciona a medicina tradicional.

Equipes do Hospital Estadual Alberto Rassi – HGG passaram por essa experiência ao receberem uma indígena com forte diarreia e pediculose. Durante o tratamento, se descobriu uma pneumonia bacteriana. Internada no Centro de Terapia Intensiva (CTI), a paciente, da etnia Warao, do norte da Venezuela, foi direcionada ao Núcleo de Apoio ao Paciente Paliativo (NAPP), onde a equipe precisou encontrar formas de se comunicar e quebrar a resistência da paciente, que se incomodava com os equipamentos afixados em seu corpo. A única forma de comunicação formal se dava por meio de parentes, que falavam um pouco de espanhol. “Para nós foi bem difícil tentar estabelecer um contato com ela”, diz o psicólogo Dimilson Vasconcelos.

Foi a tecnologia, tão distante da realidade da indígena, que proporcionou a aproximação entre a equipe e a paciente. A solução encontrada pela equipe foi estudar a cultura Warao e localizar vídeos no YouTube, que foram apresentados a ela ainda na UTI. “A gente fez alguns contatos, aliás, tentamos. Descobrimos que ela era da tribo Warao, da Venezuela. Buscamos algumas músicas no YouTube, algumas mensagens. Ela estava sem fazer nenhum contato, nem pronunciava o dialeto dela. Quando colocamos os vídeos, ela reagiu, falou algumas palavras e sorriu. Esse foi o primeiro encontro. Depois disso, foi transferida para nossa enfermaria, onde continuamos assistindo os vídeos com ela, tentando manter uma relação”, diz o psicólogo.

Uma pequena exceção nessa tentativa de comunicação foi a presença do filho, que a acompanhou em alguns momentos. “O filho conseguia fazer alguma comunicação com a gente, mas com poucas palavras. Pedia para ele perguntar se ela sentia dor e ele respondia com uma palavra. Então, foi difícil também. Ele ficou pouco tempo e voltou para casa”, comenta Dimilson. A quebra de gelo, no entanto, gerou resultados, embora perguntas importantes deixaram de ser respondidas. “Acredito que a gente não conseguiu acessá-la. Tentamos, através de gestos, e ela percebia. A técnica em enfermagem fez trancinhas nela. Ela sorriu. Teve uma vez que pegou minhas mãos, ficou olhando para elas, falou algumas palavras, que não entendi. Então, a comunicação foi bem difícil. A gente tentou uns tradutores através da Casa do Índio, mas como é um dialeto muito específico, não tinha ninguém que falasse”, relata Dimilson.

A médica residente Isabela Metran Dourado aponta resultado positivo na aproximação com a paciente. “Essa aproximação foi bem complicada, mas acredito que, com a convivência, pelo carinho que a equipe dos cuidados paliativos tem com os pacientes, a gente foi ganhando a confiança dela e hoje ela está melhor.” Entre as poucas informações que a equipe conseguiu obter, por meio do filho, foi a de que ela tinha um histórico tabagista. “Hoje em dia ela está bem melhor. Tem um acometimento pulmonar importante por causa de um histórico que a gente conseguiu resgatar com o filho dela de que era ex-tabagista. Fumou por muito tempo. Então ela é uma paciente que já tem um problema pulmonar importante.” Com a informação, foi possível passar medicamentos para atenuar os problemas dela. “Entramos em contato com a Central Estadual de Medicamentos de Alto Custo Juarez Barbosa para que ela possa tomar essas medicações inalatórias em casa, que é muito importante. Em relação ao quadro clínico, ela apresentou uma melhora importante.”

A falta de comunicação fez com que não fosse possível realizar uma convergência entre a medicina aplicada no hospital e a desenvolvida na cultura Warao, como queria a equipe do NAPP. “A gente até discutiu o que seria para eles esse cuidado, de como ela gostaria de ser cuidada. Ela foi olhada a partir dos sintomas que ela foi diagnosticada aqui, mas infelizmente a gente não conseguiu ter um olhar para essa cultura, para essa crença de como eles são cuidados, de como eles enxergam a própria vida, o próprio jeito. Infelizmente a gente não conseguiu fazer esse acesso e dar esse cuidado por esse olhar deles. Acaba que o que a gente deu foi o cuidado pelo nosso olhar”, explica o psicólogo.

Mesmo com toda dificuldade, Dimilson diz que a experiência foi um aprendizado. “Independentemente da língua, o amor prevalece. Nisso a gente conseguiu tocá-la, porque a gente via pela expressão facial dela, do que devolvia para a gente. O cuidado - a forma como as técnicas cuidavam dela, davam banho - buscou trazer a tradição deles, como fazer as tranças em seus cabelos. A gente via no olhar dela que estava agradecendo. Ela chegou arredia, mas depois já estava acessível, pegava na nossa mão. Foi bem nítida a mudança de comportamento a partir do momento que ela chegou. O afeto e o carinho são essenciais e transformadores, independentemente da língua”, finaliza o psicólogo.




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