"Eu nunca vou abandonar minha filha por causa da orientação sexual dela", "A primeira vez que ela colocou roupa de mulher, foi a libertação para ela", "Eu quero chamar ele pelo nome que ele escolheu", "Dentro da minha casa não existe preconceito, mas eu tenho medo do que ele pode enfrentar na rua". As frases são de uma roda de conversa de pais, mães, tios e irmãos de pacientes do Ambulatório de Transexualidade (TX) do Hospital Alberto Rassi – HGG. Famílias que não se conheciam, mas que se uniram para apoiar uns aos outros em um encontro com a psicóloga Flávia Nascimento, realizado nesta sexta-feira, 13 de agosto.
Para os pais Jorge Santana e Marli Tavares, ter a oportunidade de estar com outros pais e saber que eles não são os únicos a vivenciar desafios com a transexualidade da filha foi ótimo. "Foi muito reconfortante saber que nós não estamos sozinhos e que aqui no HGG nós podemos contar com o apoio desse grupo, e eu tenho certeza que muitas outras pessoas estão precisando de acolhimento assim", afirma Marli. Jorge e Marli são pais da Yana, 17 anos, e que há três meses iniciou seu tratamento no HGG. Eles contam que graças ao tratamento no ambulatório TX, houve uma melhora significativa no bem-estar da filha. "Nós estávamos até comentando isso esses dias, ela está mais alegre", disse Jorge.
Na família da Cleusa Rodrigues e do Abiram Pereira, pais do Guilherme, 22 anos, o apoio ao filho trans também nunca faltou. A mãe lembra quando o filho falou da identidade de gênero e orientação sexual, aos 19 anos, e que ela tinha uma única certeza. "Eu sempre estarei com meu filho seja qual decisão ele tomar, porque se o rejeitarem, estarão rejeitando a mim também". Para ela, o encontro com outros pais trouxe felicidade e o sentimento de que eles não estão sozinhos. "Desde que o Guilherme começou a fazer o acompanhamento aqui no HGG ele está mais feliz, ele gosta muito da psicóloga e não vê a hora da retirada da mama", conta.
Durante o encontro, os pais receberam um vídeo com mensagens dos filhos que levou todos os presentes às lágrimas. "Eu não esperava de jeito nenhum receber essa homenagem hoje, mas foi muito importante para mim e a Cleusa estarmos aqui, porque família é isso, estar juntos e se apoiando. Eu amo meu filho incondicionalmente e estarei com ele sempre", afirma Abiram.
Para a psicóloga Flávia, o encontro foi um momento de muita emoção. "Eu que os atendo, sei o quanto esse processo de mudança é desafiador tanto para eles, como para os pais. É preciso enfrentar o luto, de perder o filho tão sonhado e projetado desde a gestação, para que o outro renasça. Ela destaca a necessidade dessa assistência também aos pais, que muitas vezes têm dificuldades e até desconhecimento para compreender o processo que o (a) filho (a) está vivendo. "Que eles compreendam que não estão sozinhos na bolha. Que existem outras famílias vivenciando as mesmas questões. E ainda que a nossa equipe está aqui, também para a família. O cuidado tem que ser integral", ressalta.
Ambulatório TX
O Ambulatório TX entrou em funcionamento em 2017 no HGG e oferece atendimento médico e multiprofissional a cerca de 350 transexuais e travestis. O atendimento inclui a parte ambulatorial, com acompanhamento clínico e hormonioterapia, e parte hospitalar, que inclui a realização de cirurgias e acompanhamento pré e pós-operatório, além de assistência interdisciplinar e multiprofissional.